sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

EU, ANTONIUS BLOCK





Fui à Praça Roosevelt com a Neusa, no antigo Cineclube Bijou, assistir Bergman. Meados da década de 90, “Morangos Silvestres”. Do filme só me lembro que era em preto e branco e que contava a história de um velho viajante. Mais nada.

Em setembro do ano passado vi “O Sétimo Selo” na minha casa, numa noite morna, todo a postos, porque o filme seria discutido no Laboratório de Cinema (*). Fiquei especialmente tocado pela interpretação do ator principal, Max Von Sydow, e pelo tom dos diálogos densos. Poucas vezes um filme me disse tanto à existência. Outros me emocionaram muito mais, me encantaram, mexeram com meus ânimos, me deixaram enternecido, intrigado. Mas “O Sétimo Selo” reverberou diferente: Bergman nos faz dialogar com a própria morte. E com o sentido da nossa vida.

Engana-se, porém, quem supõe que a experiência do filme é negra. Que lidar com a morte é ser tomado pela face rubra da existência. Não. O pensar sobre a finitude inevitavelmente nos remete ao agora, um agora lenitivo, que com graça e certa disposição de espírito pode nos oferecer refúgio no amor, na alegria e, sobretudo, na Arte. Sim, a vida é trágica, nunca venceremos a partida de xadrez, mas viver nem sempre é trágico. Incrivelmente essa mensagem redentora encontrei em “O Sétimo Selo”, pois embora nada, ou pouca coisa pareça fazer sentido, embora Deus insista em esconder seu rosto, como brada no filme Antonius Block, ainda assim a vida pode ser leve e suave como o olhar verdadeiro e puro de um artista.

Tamanho foi meu entusiasmo pelo filme que copiei duas cenas. E mandei para os meus amigos mais íntimos. Então agora, quando acabo de assistir meu ainda terceiro filme do Bergman, “Luz de Inverno”, e porque pretendo rever “Morangos Silvestres”, resolvi compartilhar com vocês o “Gosto do Infinito” daquela madrugada quente de setembro.




Abaixo dois diálogos com a morte que transcrevi:



O SÉTIMO SELO
Ingmar Bergman - Suécia, 1956.


Sinopse do Filme:

Suécia, Idade Média. Um cavaleiro, após as cruzadas, embora tenha lutado pela cristandade, tem dúvidas sobre a existência de Deus. A peste devasta o país, e, em meio ao ambiente de pessoas condenada à fogueira, acusadas de bruxaria, ao invés de se encontrar com Deus, se depara com a morte em carne e osso. O cavaleiro, para ganhar tempo, desafia a morte para uma partida de xadrez, com quem mantém profundos diálogos sobre o sentido da vida.




1ª Cena - Encontro com a morte.

[Cavaleiro] Quem é você?

[A morte] Sou a morte.

[Cavaleiro] Veio me buscar?

[A morte] Ando com você há muito tempo.

[Cavaleiro] Eu sei.

[A morte] Está preparado?

[Cavaleiro] Meu corpo está, mas eu, não.

[A MORTE AVANÇA]

[Cavaleiro] Espere!

[A morte] Está bem, mas não posso adiar.

[Cavaleiro] Você joga xadrez?

[A morte] Como sabe?

[Cavaleiro] Eu já vi nas pinturas.

[A morte] Posso dizer que jogo muito bem.

[Cavaleiro] Não é mais esperto do que eu.

[A morte] Por que quer jogar comigo?

[Cavaleiro] Isto é problema meu

[A morte] Está bem.

[Cavaleiro] Se eu vencer, viverei. Se for xeque-mate, me deixará em paz.

[Sorteando a cor das peças diz]: Jogue com as pretas.

[A morte] Bem apropriado, não acha?


3ª Cena - Confissão. Encontro com a morte em uma capela.

[Cavaleiro] Quero confessar com sinceridade, mas meu coração está vazio. O vazio é um espelho que reflete no meu rosto. Vejo minha própria imagem e sinto repugnância e medo. Pela indiferença ao próximo, fui rejeitado por ele. Vivo num mundo assombrado, fechado em minhas fantasias.

[A morte] [DISFARÇADA] Agora quer morrer?

[Cavaleiro] Sim, eu quero.

[A morte] E pelo que espera?

[Cavaleiro] Pelo conhecimento.

[A morte] Quer garantias?

[Cavaleiro] Chame como quiser. É tão inconcebível tentar compreender Deus? Por que Ele se esconde em promessas e milagres que não vemos? Como podemos ter fé se não temos fé em nós mesmos? O que acontecerá com aqueles que não querem ter fé ou não tem? Por que não posso tirá-lo de dentro de mim? Por que Ele vive em mim de uma forma humilhante apesar de amaldiçoá-lo e tentar tirá-lo do meu coração? Por que, apesar de Ele ser uma falsa promessa eu não consigo ficar livre? Você me ouviu?

[A morte] Sim, ouvi. (A morte se vira, para não ser reconhecida).

[Cavaleiro] Quero conhecimento, não fé ou presunção. Quero que Deus estenda as mãos para mim, que mostre seu rosto, que fale comigo. Mas Ele fica em silêncio. Eu O chamo no escuro, mas parece que ninguém me ouve.

[A morte] Talvez não haja ninguém.

[Cavaleiro] A vida é um horror. Ninguém consegue conviver com a morte e na ignorância de tudo.

[A morte] As pessoas quase nunca pensam na morte.

[Cavaleiro] Mas um dia na vida terão de olhar para a escuridão.

[A morte] Sim, um dia.

[Cavaleiro] Eu entendo. Temos de imaginar como é o medo e chamar esta imagem de Deus.

[A morte] Está nervoso.

[Cavaleiro] A morte me visitou esta manhã. Jogamos xadrez. Ganhei tempo para resolver uma questão urgente.

[A morte] Que questão?

[Cavaleiro] Minha vida tem sido de eternas buscas, caçadas, atos, conversas sem sentido ou ligações. Uma vida sem sentido. Não falo isto com amargura ou reprovação como fazem as pessoas que vivem assim. Quero usar o pouco tempo que tenho para fazer algo bom.

[A morte] Por isso jogou xadrez com a morte?

[Cavaleiro] Ela tem táticas inteligentes, mas até hoje não perdi para ninguém.

[A morte] Como vencerá a morte no seu jogo?

[Cavaleiro] Tenho uma jogada com o bispo e o cavalo que ela não conhece. Quebrarei sua defesa.

[A morte] [MOSTRANDO SUA VERDADEIRA FACE] Lembrarei disto.

[Cavaleiro] Você é um traidor e me enganou. Mas nos encontraremos de novo, e eu acharei uma saída.

[A morte] Nos encontraremos e continuaremos nosso jogo.

[A MORTE SAI]

[Cavaleiro] Esta é a minha mão. Posso mexê-la. O sangue pulsa nela. O sol está alto no céu e eu, e eu, Antonius Block, jogo xadrez com a morte.


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(*) O Laboratório de Cinema é uma iniciativa dos alunos da Escola Paulista de Medicina que criaram o Projeto Nassal - Núcleo de Artes e Saúde Saltimbancos, que diretamente influenciados pelo Laboratório de Humanidades propõe “a discussão / reflexão de questões essencialmente humanas através das grandes obras do cinema universal”.
http://projetonassal.wordpress.com/laboratorio-de-cinema/


2 comentários:

  1. Licurgo, suas reflexões são muito interessantes e você escreve muito bem. Eu agradeço a sua postagem, especialmente, porque Ingmar Bergman é o meu cineasta favorito, você sabe disso. Parabéns, continue postando! Um abraço. José Luiz

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  2. José Luiz, fico muito feliz por suas palavras. Penso sempre em você quando também penso em Bergman, embora nunca tenhamos conversado sobre os filmes dele. Mas sinto que ainda teremos muitas oportunidades para isso. Grande abraço, e obrigado, Licurgo.

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